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PorAna Beatriz de Castro L. Muniz

As Raízes do Conhecimento e o Florescimento Acadêmico: A Educação Ambiental como Transformadora do Mundo

Paulo Freire, acertadamente, falou que a educação muda pessoas e pessoas transformam o mundo. No contexto climático, a frase não poderia ser tão literal.

Cinco décadas atrás, educação ambiental teria sido fundamental. Se houvesse rewind na nossa realidade e pudéssemos voltar no tempo levando uma foto de 2020, talvez o presidente dos EUA à época tivesse crescido reconhecendo a importância de sustentabilidade. Talvez houvesse uma legislação internacional rigorosa que puniria os níveis altíssimos de carbono na atmosfera e até fiscalização das indústrias petrolíferas e dos seus contratos com as nações mais desenvolvidas do globo. Talvez eu não teria o que escrever nesse espaço a não ser sobre os novos frutos da educação ambiental, mas não. Aqui eu escrevo sobre raízes do conhecimento ambiental.

É algo que eu venho pensando há um tempo. Graças ao Professor João – é inevitável para mim me referir a qualquer um dos meus professores sem a palavra mágica na frente – e a sua iniciativa do Educo.Work, tenho esse espaço para compartilhar um pouco da minha perspectiva.

Para tanto, tracei uma linha da minha vida educacional, do Maternal I ao 9º período de Direito, e me perguntei “O que me trouxe até meu ativismo ambiental?”. Foram as mudinhas de feijão que a professora do Jardim II me ensinou a plantar ou foi o relatório sobre a Rio-92 que eu tive que escrever para a aula de Geografia?

Assim como eu, muitos passaram por essas experiências durante a infância. Ouso até dizer que atuais magnatas da indústria petrolífera tiveram que soletrar “sustentabilidade” pelo menos uma vez na vida escolar. Assim como eu, muitos aprenderam sobre as imutáveis leis da natureza antes de aprender sobre as leis que nós criamos. Por que, então, em pleno século XXI, a sociedade está mais disposta a ignorar as primeiras do que incentivar mudanças positivas nas segundas?

Indo mais à fundo nesse buraco de coelho ecológico, eu me lembrei da diferença de solos e condições climáticas para plantação. Longe de ser especialista no tema, sei de um ou dois fatos: a semente só se desenvolve no solo que lhe é favorável e a chuva favorece o crescimento. Foi quando comecei a compreender de que forma a educação ambiental é capaz de transformar o ser humano.

Não é somente a mudinha de feijão ou o relatório de Geografia. Não é nem mesmo citar artigos da Lei de Crimes Ambientais ou reler o artigo 225 da Constituição Federal. Educação não é passiva. Educação é confluência. A semente educacional ambiental se desenvolve na mente que está aberta a aceitá-la. A chuva ou o professor só podem favorecer o crescimento se houver semente. Da mesma forma, a escassez de chuva em nada ajuda no conhecimento ambiental.

A partir dessa simples metáfora é mais fácil entender como chegamos a ter uma crise climática. Afinal, uma das frases educacionais mais clichés, porém, verdadeira, é que todo profissional foi antes um estudante. Nesse caso em especial, vale lembrar que líderes de Estado, lobistas e certos empresários foram.

Comprovadas cientificamente, as consequências que vemos ao nosso redor foram impulsionadas por ações humanas. Diferentemente do que Francis Bacon acreditava, as leis naturais seguem uma simples lógica de causa e efeito e ao invés da natureza depender de nós, somos nós que dependemos dela. Desde da Revolução Industrial, essa crença tem sido convenientemente invertida.

“E o que isso tem a ver com a educação ambiental?” é o que alguns podem ter chegado até aqui se perguntando. Uma resposta rápida seria “muito”, uma resposta mais complexa, como talvez outros tenham presumido, seria “tudo”. Uma vez que educação, lato sensu, é a base, a área de conhecimento ambiental também está incluída na estrutura basilar. Pelo menos, ela deveria ter sido.

A escassez de chuva educacional ambiental é grande. No Brasil, onde a falta de educação já é um problema alarmante, a ambiental, em stricto sensu, talvez padeça dos mesmos sintomas de muitas leis brasileiras. Se e quando a palavra “meio ambiente” foi mencionada em sala de aula, raramente saiu de lá. Vinte anos atrás, “aquecimento global” já era um problema, porém, se e quando foi mencionado, dificilmente saiu do papel da prova.

Nesse ponto, eu voltei para a minha linha educacional com outra pergunta: “O que faz um professor ser um professor?”. Uma pergunta que pode ser preocupante vindo de uma aluna – alguns podem pensar que eu irei fazer uma via crucis típica de aluno aqui – mas que não deixa de ser uma perspectiva necessária para essa discussão. Passando por uma lista mental dos meus, encontrei um aspecto em comum em todos. Independentemente de personalidade, tom de voz ou tipo de prova, um professor é, de fato, um professor quando há conexão. E o que eu chamo de conexão nada mais é do que o compartilhamento de ideias entre aluno e educador que ultrapassa as paredes da sala de aula.

Em linhas gerais, um professor é um professor quando a sala de aula e a realidade do mundo não se dividem, são um só. O meio ambiente do papel é onde nós estamos. Aquecimento global não é só uma alternativa da prova, é a nossa realidade.

Claro, para haver conexão, para a chuva ser favorável, deve haver semente. E o momento em que essa semente deva ser plantada talvez leve a uma discussão filosófica mais aprofundada, uma que eu adoraria ter com meu antigo professor de Filosofia do Direito. Para fins dessa análise, entretanto, apenas posso oferecer um palpite. Não só plantei mudinha de feijão e tive o privilégio de estudar em uma escola de qualidade. Ganhava Atlas de presente da minha avó todo ano, assistia Discovery Channel semanalmente e brincava de arqueóloga no quintal. Talvez devido a essa plantação, desmerecer a educação ambiental nunca me pareceu lógico. Por que, então, para tantos alunos “aquecimento global” foi só um termo jogado no vácuo da sala?

Em resumo, a escassez da preocupação com a educação ambiental, o gap entre sala de aula e realidade global, a falta de interesse de alunos somados a estereótipos políticos que consideram a questão ambiental uma coisa de hippie, e não matéria de sobrevivência, nos trazem a essa realidade climática.

O rewind que eu mencionei outrora não nos traz nenhuma certeza de que teria dado certo. Afinal, não foi por falta de informação que a crise global chegou a ser, de fato, uma crise. Cientistas, economistas e ambientalistas falam nela há décadas, os governos só não estão ouvindo. Mesmo assim, não posso deixar de notar que esse ilustrativo projeto de ficção científica registra a esperança de que a educação teria sido, como ainda é, a base para a transformação de um mundo mais justo e menos quente.

Entretanto, a máquina do tempo de H.G. Wells é ficção. Não podemos voltar ao tempo em que educação ambiental era somente fundamental. Atualmente, temos que enfrentá-la da forma que ela realmente se apresenta. Urgente.

Nos termos de crise climática, talvez uma boa estratégia educacional envolvesse os professores adentrando as salas de aula com uma caixa de som tocando It’s The End Of The World As We Know It, de R.E.M. ou, inspirados pelos últimos eventos no Pantanal, We Didn’t Start The Fire, de Billy Joel.

Brincadeiras à parte, o atual desafio da educação ambiental é o maior que já enfrentou, ou melhor, vem enfrentando nas últimas décadas. A única diferença é que enquanto professores tentam demonstrar a veracidade do problema (que não é, como um certo ex-presidente falou, uma mentira criada pela China), a crise climática somente se agrava, afetando principalmente a parcela da população que já é a mais negativamente afetada por outras circunstâncias.

O fato de ser preocupante, todavia, não pode dar lugar ao pessimismo. Embora da sala de aula eu só conheça o lado de estudante, eu presumo que quando o assunto é educação, e especificamente a ambiental, ser preocupante é lição número 1 nesse país. Apesar de tudo, continuo sendo aluna de vários e vários professores que persistem em lecionar. A educação aparenta ser, de fato, La Résistance.

Não só acredito que a educação ambiental deva ultrapassar as salas de aula, como também penso que deva interligar elas. Partindo do ponto de vista de que a crise climática é a realidade que nos cerca no momento, ela não pode ser tão somente um tópico da aula de Geografia.

As sementes precisam ser plantadas no começo e regadas durante a vida escolar para que se chegue ao florescimento acadêmico. Um aluno que não foi capaz de entender “aquecimento global” na 5ª série pode vir a se tornar um estudante de Direito que não entende porque a falta de fiscalização governamental na Amazônia ou a aparente ineficácia do Acordo de Paris são problemas relevantes. Em 3 anos, ele pode estar advogando em prol de uma indústria que ameaça a própria sobrevivência dele.

 Assim, quando a educação ambiental for tratada de maneira realista, começaremos a debater novos frutos.

Enfim, cheguei ao momento atual na linha que tracei no começo. Quase graduada em Direito, com foco acadêmico em Justiça Climática e fundadora de projeto ambientalista no Instagram, consigo ver claramente como as raízes educacionais me guiaram até aqui.

A educação ambiental é um ponto essencial na luta contra a crise climática e quando não é ignorada, sementes podem ser plantadas. Esperançosamente, devido às ações provindas dessas plantações, nós teremos a chance de um futuro.

Por fim, para garantir que a semente seja plantada de forma realista, mas sempre com um traço de esperança, lhes deixo com os versos de John Denver, os quais sempre me fazem rememorar minhas raízes ambientais:

The music of the mountains and the colours of the rainbow, in their innocence and trusting – they will teach us to be free