Arquivo de etiquetas Aulas

PorFábio Emerenciano

Os problemas do aprendizado acelerado do inglês ou como não cair em falsas promessas de fluência em poucos meses

No mundo digital, onde tudo é prático e rápido, a oferta de dicas e segredos que acelerem a conquista de objetivos é uma prática comum, nas navegações pelo mundo virtual nos deparamos com anúncios que prometem perda de peso em poucas semanas e soluções mágicas para curar doenças com simples passos diários. E o melhor: gastando pouco dinheiro.

Tais atalhos também têm chegado àqueles que pretendem aprender uma língua estrangeira, geralmente o inglês. São inúmeros os sites que oferecem dicas infalíveis para a aquisição da língua alvo em poucos meses, e com fluência assegurada.

Antes de aprovar ou condenar tais possibilidades, é preciso ter em mente que, de fato, cada pessoa aprende de formas diferentes e em prazo distinto. Há, realmente, aqueles que necessitam de um curso regular que dure anos, e há aqueles que, sozinhos, se desenvolvem muito bem num idioma estrangeiro em um período reduzido.

Como funcionam os cursos que prometem resultados imediatos? Não cabe a este artigo esmiuçar tais procedimentos, mas é possível destacar que eles normalmente demonizam a gramática, afirmando que as normas da língua são enfadonhas e que atrasam a “aquisição real” da língua alvo. É mais ou menos como dizer que não precisamos aprender a formalidade linguística para nos comunicarmos com os nativos. Segundo esse preceito, o importante é aprender “apenas o necessário”, ou seja, somente aquilo que vai servir para a interação com nativos da língua inglesa. Assim, em geral, as aulas focam em situações específicas e são dadas aos alunos frases e estruturas prontas que servem especificamente para conversas em restaurantes, hotéis, aeroportos e informações rápidas como que direção tomar na rua ou saber sobre clima. 

O problema é que tais tópicos resultam numa grande limitação quanto à comunicação dita fluente. O conceito básico da fluência, segundo o Michaelis Online é: “Característica daquilo que é espontâneo, natural; espontaneidade, fluidez”, ou seja, ser fluente é falar o idioma com facilidade, naturalidade, sem um roteiro pré-definido. O site Exam English, especializado em exercícios de preparação para provas de proficiência em língua inglesa, define o nível linguístico C1, o avançado, como “a habilidade de lidar com tópicos com os quais o falante não esteja familiarizado”. Fica claro que ser fluente num idioma estrangeiro não é apenas se comunicar em situações específicas, mas ter a habilidade de lidar com situações inesperadas sem que haja danos à comunicação.

É preciso saber, portanto, que nem sempre um interlocutor dará respostas conforme o esperado, razão por que são necessários um conhecimento linguístico sólido e um vocabulário mais complexo, condições indispensáveis para uma comunicação clara. O Preply diz que o falante de nível avançado “se expressa fluentemente quase que em qualquer situação, sem a necessidade de se recorrer às expressões”. Entendemos que o falante fluente se comunica bem sem precisar lançar mãos de frases prontas, previamente memorizadas.

O aprendizado real vai muito além do mero ensaio de situações específicas e da memorização de perguntas e respostas selecionadas previamente. Chegar ao nível de confiança plena numa língua estrangeira é lidar com questões do dia-a-dia, resolver problemas, conversar sobre assuntos inesperados e interagir com diferentes mídias (sites, chats, jornais, livros, rádios, TVs…), entre outros.

Outro ponto importantíssimo a ser considerado quando estudamos outro idioma: o sotaque, um aspecto geralmente ignorado nestas promessas de aprendizado rápido, o que leva o aluno a entender que repetir o que é dito, imitar a pronúncia apresentada, leva a excelência da expressão oral.

A forma de falar varia bastante entre regiões e tem papel fundamental na comunicação. É natural que tenhamos preferência e / ou facilidade para determinada maneira de expressão, mas estamos sempre sujeitos a nos deparar com interlocutores de diferentes países e cidades, com características marcantes no jeito de falar. E como ignorar isso?

O canal de YouTube Oxford Online English tem vários vídeos que levantam a necessidade de ouvirmos “diferentes vozes”, ou seja, diferentes pessoas se expressando oralmente das mais distintas formas. A perfeita compreensão de todos os sotaques é praticamente impossível para um não nativo, entretanto, quanto maior a convivência com a diversidade, maior a habilidade de expressão e de compreensão da língua alvo.

A imersão cultural é outro fator de suma importância para a aquisição real do idioma pretendido. A história, a geografia, a música, o cinema, a TV, a culinária, e o esporte, entre outros, nos ajudam a entender tópicos de conversação, vocabulário, gírias e sotaques, o que melhora sensivelmente nossa capacidade de manter uma conversa eficiente que, como já vimos, é algo fácil, espontâneo e fluído, sem as amarras da memorização e do limitado vocabulário.

“se baseia na ideia de que o exitoso aprendizado de uma língua vem da necessidade de comunicar o sentido real. Na Abordagem Comunicativa o objetivo principal é apresentar um tópico em um contexto o mais natural possível”. Tal definição só corrobora com a ideia que o falante precisa estar preparado para a comunicação e para discussões que sejam necessárias. E numa situação assim, os argumentos precisam ser eficientes e espontâneos.

Não há nada de errado em se buscar e em se oferecer um aprendizado mais rápido e com aulas e avaliações mais práticas; e também é importante que se simule, nas aulas, conversas e situações corriqueiras. Mas é necessário que os critérios aqui explanados sejam observados. A excelência do ensino e do aprendizado não reside na duração dos cursos, mas em como eles são montados e ministrados. Se a instituição ou professor particular oferece vocabulário formal e informal, estrutura e prática de gramática eficientes, imersão cultural e distintos sotaques, o aluno está diante de uma grande oportunidade de aprendizado real. E a partir daí, montando, junto com o educador, um programa de estudo e prática da língua, o aprendiz poderá aproveitar os benefícios de ter um amplo conhecimento da língua estrangeira.