O Brasil ainda não fala inglês

PorFábio Emerenciano

O Brasil ainda não fala inglês

Não há dúvidas que o inglês é uma língua universal e que aprendê-lo é quase uma obrigação para quem tem pretensões no exterior ou pensa em uma carreira acadêmica mais sólida. No Brasil a demanda por aulas de inglês é tão grande que até mesmo cidades medianas têm cursos de inglês. Além disso, há cursos de extensão nas universidades e já são – ou somos – muitos os professores que se dedicam às aulas particulares. Isso tudo para não citar as centenas de vídeos no YouTube e sites dedicados ao ensino da língua de Shakespeare. E o melhor, muita coisa na internet é totalmente gratuita!
Mas eis que em 2019 o Conselho Britânico fez um levantamento e chegou à assustadora conclusão de que apenas 5% dos brasileiros conseguem se comunicar fluentemente em inglês. Ou seja, mesmo com tantos recursos disponíveis, o patamar de falante da língua inglesa no Brasil ainda é ocupado por pouquíssimas pessoas. Aliás, no estudo citado, o Brasil ficou atrás de Vietnã, Costa Rica e Lituânia, países com economia bem inferior à nossa e, no caso da Lituânia, uma nação que há poucas décadas vivia no Comunismo e na sua oposição ao mundo capitalista ocidental.
O estudo também apresenta algumas razões que podem explicar esses números tão ruins no Brasil. A primeira seriam as poucas horas que as escolas brasileiras se dedicam ao ensino de inglês. Na maioria dos casos são apenas duas aulas semanais, muitas vezes aulas de menos de uma hora cada. Assim, numa semana, se estuda de uma hora e quarenta a duas horas a cada sete dias, apenas. Num mês, os alunos não passam de meras oito horas expostos ao inglês. De fato, muito pouco para se aprender.
Recentemente em uma conversa com uma colega professora de inglês no interior da Dinamarca, fiquei sabendo que, por lá, os alunos têm pelo menos 6 horas semanais de inglês. E mais, desde os seis anos de idade, às vezes até mais cedo, os alunos dinamarqueses já assistem aulas dadas totalmente em inglês. Que diferença, hein? Num mês, fazendo contas bem simples, os pequenos dinamarqueses têm uma carga de 24 horas ouvindo, falando, lendo e escrevendo inglês.
Outro fator preocupante é que, segundo o estudo, foi realizado um teste de proficiência com mais 37 mil brasileiros que se diziam fluentes em inglês. E o resultado foi bem ruim. De todos os testados, apenas 36%, um pouco mais de 13 mil, fora bem o suficiente para comprovar a fluência.
O levantamento ainda aponta que funcionários brasileiros de empresas multinacionais instaladas no país também estão longe de dominar o inglês. A nota média dos 13 mil testados foi de menos de 2,5 de um total de 10. Este resultado coloca o Brasil numa péssima 67ª posição no mundo neste quesito.
Números como estes só provam que o Brasil há décadas tem deixado de prover uma Educação de qualidade a seus cidadãos. Um país com a importância do Brasil não pode ficar em posições tão baixas na comparação com outras nações, ainda mais no ensino e aprendizado de um idioma relativamente simples – e extremamente importante – como o inglês.
Mas o que se pode fazer?
A primeira coisa é garantir que as escolas ensinem, com eficiência, pelo menos uma noção básica do idioma. E por noção básica deve-se entender a capacidade de se expressar, de maneira oral e escrita, sobre si próprio e falar sobre rotina e descrever preferências, respeitando a gramática e desenvolvendo um vocabulário razoável. Deve-se ter, ainda que de maneira superficial, conhecimento de tempos verbais como presente, passado e futuro; além de compreender, ainda que com falhas, um texto simples.

Sobre o autor

Fábio Emerenciano author

Fábio Emerenciano é educador desde 1994. Tem formação em Letras com Habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Estadual da Paraíba, e Pós Graduação em Metodologia e Ensino da Língua Inglesa e Espanhola. Tem dois cursos de inglês avançado pela EF School em Hastings, Inglaterra. Foi professor em diversas escolas de idiomas de Campina Grande, como Cultura Inglesa e Yázigi, nos níveis iniciantes, intermediários, avançados e de proficiência. Nestas instituições também organizou eventos culturais onde escreveu e dirigiu peças teatrais e coordenou números musicais. Por três anos acumulou experiência na coordenação pedagógica do Yázigi Campina Grande. Trabalhou também em centros profissionalizantes como SENAI e SENAC. Nos últimos anos vem trabalhando com aulas particulares nas modalidades online e presencial. Além de professor é tradutor de textos acadêmicos há mais de 25 anos. Tem experiência com transcrição de áudios, legendagem e já trabalhou como intérprete.

2 Comentários

Tatiana SallesPublicado em9:52 am - Jul 21, 2021

Realmente , professor, o ensino formal no Brasil está na UTI. Vc descreveu a situação do ensino de inglês, mas não é muito diferente da situação do português , matemática, biologia, história, geografia …

    Fábio EmerencianoPublicado em9:36 pm - Jul 30, 2021

    Olá Tatiana,

    Obrigado pelo comentário. E, sim, você está certa. Foquei no inglês porque é a minha área, mas a Educação brasileira sofre há anos. Décadas, na verdade.

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