Arquivo mensal Junho 30, 2021

PorFábio Emerenciano

O Brasil ainda não fala inglês

Não há dúvidas que o inglês é uma língua universal e que aprendê-lo é quase uma obrigação para quem tem pretensões no exterior ou pensa em uma carreira acadêmica mais sólida. No Brasil a demanda por aulas de inglês é tão grande que até mesmo cidades medianas têm cursos de inglês. Além disso, há cursos de extensão nas universidades e já são – ou somos – muitos os professores que se dedicam às aulas particulares. Isso tudo para não citar as centenas de vídeos no YouTube e sites dedicados ao ensino da língua de Shakespeare. E o melhor, muita coisa na internet é totalmente gratuita!
Mas eis que em 2019 o Conselho Britânico fez um levantamento e chegou à assustadora conclusão de que apenas 5% dos brasileiros conseguem se comunicar fluentemente em inglês. Ou seja, mesmo com tantos recursos disponíveis, o patamar de falante da língua inglesa no Brasil ainda é ocupado por pouquíssimas pessoas. Aliás, no estudo citado, o Brasil ficou atrás de Vietnã, Costa Rica e Lituânia, países com economia bem inferior à nossa e, no caso da Lituânia, uma nação que há poucas décadas vivia no Comunismo e na sua oposição ao mundo capitalista ocidental.
O estudo também apresenta algumas razões que podem explicar esses números tão ruins no Brasil. A primeira seriam as poucas horas que as escolas brasileiras se dedicam ao ensino de inglês. Na maioria dos casos são apenas duas aulas semanais, muitas vezes aulas de menos de uma hora cada. Assim, numa semana, se estuda de uma hora e quarenta a duas horas a cada sete dias, apenas. Num mês, os alunos não passam de meras oito horas expostos ao inglês. De fato, muito pouco para se aprender.
Recentemente em uma conversa com uma colega professora de inglês no interior da Dinamarca, fiquei sabendo que, por lá, os alunos têm pelo menos 6 horas semanais de inglês. E mais, desde os seis anos de idade, às vezes até mais cedo, os alunos dinamarqueses já assistem aulas dadas totalmente em inglês. Que diferença, hein? Num mês, fazendo contas bem simples, os pequenos dinamarqueses têm uma carga de 24 horas ouvindo, falando, lendo e escrevendo inglês.
Outro fator preocupante é que, segundo o estudo, foi realizado um teste de proficiência com mais 37 mil brasileiros que se diziam fluentes em inglês. E o resultado foi bem ruim. De todos os testados, apenas 36%, um pouco mais de 13 mil, fora bem o suficiente para comprovar a fluência.
O levantamento ainda aponta que funcionários brasileiros de empresas multinacionais instaladas no país também estão longe de dominar o inglês. A nota média dos 13 mil testados foi de menos de 2,5 de um total de 10. Este resultado coloca o Brasil numa péssima 67ª posição no mundo neste quesito.
Números como estes só provam que o Brasil há décadas tem deixado de prover uma Educação de qualidade a seus cidadãos. Um país com a importância do Brasil não pode ficar em posições tão baixas na comparação com outras nações, ainda mais no ensino e aprendizado de um idioma relativamente simples – e extremamente importante – como o inglês.
Mas o que se pode fazer?
A primeira coisa é garantir que as escolas ensinem, com eficiência, pelo menos uma noção básica do idioma. E por noção básica deve-se entender a capacidade de se expressar, de maneira oral e escrita, sobre si próprio e falar sobre rotina e descrever preferências, respeitando a gramática e desenvolvendo um vocabulário razoável. Deve-se ter, ainda que de maneira superficial, conhecimento de tempos verbais como presente, passado e futuro; além de compreender, ainda que com falhas, um texto simples.

PorJoão Ademar de Andrade Lima

Ao “tempo” e ao “acaso”

…e 500.000 respiros a menos

Parar para pensar no “acaso” é parar para pensar em como a efemeridade da vida pode ser angustiante, estressante, tortuosa, depressiva! Pensar que cada gesto, cada movimento, cada cinco minutos – ou cinco segundos – “perdidos” ou adiantados podem contribuir para mudanças absolutamente radicais em nosso percurso terreno, idem assustador, principalmente porque essa condição de certeza só reforça a, também, certeza que a vida é um mero recorte de acontecimentos, unidos como num quebra-cabeça, por vezes desordenado. Parar para pensar em nossa existência e nas missões de vida que a natureza nos incumbiu é outra desventura que volta e meia me deparo enfrentando.

Meu Deus, se não sei nem o que vou fazer daqui a cinco minutos – qual aqueles mesmos que falei há pouco – quiçá as incumbências que ela – a vida – tem para me fazer cumprir! Estamos numa era de aceleração, num momento histórico ubíquo, em que o “tudo ao mesmo tempo e agora” se tornou regra basilar, afastando-nos do ostracismo, da preguiça, da autocontemplação, da vivência pura e simples, do se sentir respirar, do se sentir viver, presente nas pequenas, bobas e simplórias coisa da vida, do cheiro da chuva à contagem das estralas.

Hoje completamos 500.000 mortes oficiais por Covid-19 no Brasil. Meio milhão de mortos! Números, para nós – ainda vivos – sermos levados a pensar – para além de todas as angústias reflexões decorrentes – na necessidade de desacelerar, reduzir a marcha e sentir o respiro que nos resta!

Desacelere o tempo para vislumbrar o acaso. Pare de buscar entender essa tal missão para simplesmente esperar o porvir. Deixe o amanhã pelo hoje, tentando entender que a vida, e sua efemeridade, é dada, de presente, pelo presente. Busque, ainda que superficialmente, aceitar que a passagem é um fato, que quaisquer planos, por quaisquer motivos, podem ser abruptamente desfeitos, que ao “tempo” está o “acaso”, que o “tudo está escrito” transforma-se num livro em branco, com capítulos paulatinos, mutáveis, inéditos e imprevistos.

E – ao menos (tomara!) por hora… quem sabe? – isolados e cansados, mas com fé, máscara, vacina, ciência e verdade.